Linhas convergentes
Por Frederico Pimenta
Releitura dos documentos originais da história dos Salesianos em Portugal. Trabalho ímpar de tantos investigadores, com especial destaque para o Pe. Amador Anjos, historiador, conhecedor profundo e inspirador de dissertações e teses sobre a vida e obra dos Salesianos em Portugal.
Boletim Salesiano – 1902 – recortes antropológicos
As qualidades das descrições das diferentes culturas encontradas pelos missionários salesianos, nomeadamente na América do Sul, tornaram o Boletim Salesiano (BS) uma fonte de irrefutável abundância no que a este assunto diz respeito. Implícito encontra-se, como é evidente, o pensamento do fundador dos Salesianos e o olhar sonhador da expansão do trabalho missionário naqueles territórios. É deste trabalho que, desde cedo, as obras salesianas surgiram e se robusteceram, tendo como exemplo o território brasileiro e o seu incontável desenvolvimento.
Sumariamente, propomos um olhar sobre os traços identificativos de diferentes ambientes antropológicos elencados no ano de 1902 e plasmados no Boletim Salesiano coevo. Reporta-se às onze publicações desse ano, com a particularidade de ser o primeiro ano da publicação do BS em língua portuguesa. De acordo com as palavras do Pe. Miguel Rua, “O Boletim mostrar-vos-á o campo extenso da actividade dos Salesianos (…)”. Por conseguinte, todas as citações contidas neste grafado foram transcritas das edições desse ano de 1902. (1)
Como metodologia, optámos pelo elenco de algumas tribos ameríndias abordadas, certas dificuldades sentidas e usos e costumes autóctones.
Trabalho sintetizante e nunca, neste contexto, com características de aprofundamento. Espelha-se a grandeza deste movimento missionário e a coragem latente transposta em cada linha das diferentes cartas enviadas aos responsáveis gerais, nomeadamente ao Pe. Miguel Rua, primeiro sucessor de D. Bosco, dando esclarecimento do trabalho expandido. Os relatos, dispersos ao longo do ano no BS, desenrolam-se, como é evidente, neste espaço escrito, ao longo das publicações deste ano de 1902, sendo os destaques apresentados como um todo, versando o tema aqui sobrelevado.
Datada de 19 de março de 1900 e da autoria do Pe. Cezar Lardi, assoma uma relação dos contornos geográficos e trabalho desenvolvido na Patagónia, no “Territorio do Pampa Central”, ressaltando, de acordo com as suas palavras, que “A peste destas regiões é a invasão dos traficantes europeos de costumes corrompidos e sem nenhum principio de fé”.
Da região do Equador e do documento elaborado pelo Pe. Francisco Mattana, surge a relação datada de 1899, que nos mostra “(…) uma excursão apostólica através do nosso vasto Vicariato Oriental do Equador (…) dando alguma idéa da extensão do território, do clima, da sua vegetação, dos rios, etc., etc.”. Surgem aqui os Jivaros, demorando-se o autor em pormenores da sua vivência e não esquecendo “(…) pondo á minha cintura um bom revolver e um machete (…)”. O Pe. Mattana descreve ainda uma cena de caça aos macacos protagonizada pelos índios Jivaros e o quanto impressionado ficou. Neste contacto com a fauna destes locais, o relato escrito confronta-nos “(…) com uma serpente venenosa completamente branca do comprimento de um metro, a que os índios chamam Coripuapia.” Ao nível da flora, descreveu uma espécie vegetal, “(…) uma arvore fructifera, (…) coberta de flôres amarellas e vermelhas (…), a que os índios davam o nome de Ubarima (…)”. A beleza dos diferentes locais é reproduzida com fina escrita, respeitando essa beleza e localizando-a onomasticamente. Provando que a aproximação e confiança do missionário se ganhou lentamente num contacto estreito com as tribos, escreve: “Em seguida dei remedios a algumas pessoas doentes, que graças a Deus sararam, ganhando o Missionario maior reputação”. O bom relacionamento com esta tribo fez-se sentir ao longo deste relato com pormenores de são acolhimento: “Pela tarde chegamos á casa do Jivaro Nanchima, cunhado do Jivaro João Cayapa, chefe dos Jivaros que me acompanharam”. As diferentes fações desta tribo levantaram, apesar de tudo, algumas dificuldades nos contatos estabelecidos na concretização do projeto missionário. Termina esta redação com a fórmula de despedida: “Abençoe-me, amado Sr. D. Rua, e lance uma grande bênção sobre todos os habitantes destas extensas florestas equatorianas”.
Do Brasil, concretamente de Mato Grosso, o Pe. João Balzola, em relação de 15 de novembro de 1900, menciona as tribos Bacairys e Cabexins. Destes últimos, refere: “(…) esta tribu que incute espanto e terror aos extractores da borracha (…)”. As dificuldades sentidas, as lutas constantes e os rituais tribais foram descritos com real crueza nas missivas endereçadas. Igualmente as descrições das paisagens elevam as informações sobre os locais por onde se processaram as deambulações missionárias. Dos Bacairys, o cronista regozija-se em determinado momento da sua descrição pelo reencontro com alguns elementos batizados no dia de Natal de 1899. No entanto, estes encontros nem sempre expressaram torrentes de alegria. Neste mesmo percurso, após o naufrágio de algumas canoas num rio, o encontro com os indígenas traduziu-se neste grafado: “Era um Indio que nos intimava que voltassemos atraz ameaçando-nos com gestos (…)”. O encontro com diferentes culturas obrigou a uma adaptação dos missionários ao contexto encontrado, “Estando no meio deles foi necessário que cantasse e dançasse com eles o bacururú, o que nunca fiz com os Coroados, mas que julguei oportuno fazer no meio dos Cabexins”. Em todas as ocasiões se estabeleciam laços de compreensão e conhecimento mútuo: “Emquanto se preparava o jantar sentei-me no meio deles, aproveitando das suas boas disposições para apprender alguma palavra da sua língua”. Outros aspetos sobressaem do quotidiano descrito, nomeadamente aspetos de antropofagia. A fórmula de conclusão deste relato evoca o Pe. Miguel Rua: “Abençoe-me a mim e a todos os selvagens de Matto-Grosso (…)”.
Endereçada da Terra do Fogo, no dia 20 de março de 1901, da autoria do Pe. Gusmão, localizámos: “Os fueginos que estão nas nossas missões pertencem a duas tribus, que diferem entre si por costumes, aspecto e língua. A ilha grande da Terra do Fogo é habitada pelos Onas (…) Na ilha Dawson (…) vivem os Alacalufes (…)”. Estes últimos dedicavam-se à pesca. A carta do Pe. Gusmão refere, com um momento de espanto, a excelente visão que ambas as tribos possuíam: “(…) distinguem cousas que nós só podemos ver com lentes poderosas”. A descrição do modo de vida destas tribos perpassa pelo caráter recolector do sustento, as suas construções, estruturas físicas, processo de caça, escasso vestuário e a periclitante higiene.
O Pe. José Maria Beauvoir, em 1898, num escrito de memória sobre atividade realizada na Terra do Fogo nove anos antes, em 1889, recorda o contacto com a tribo dos Alacalufes aquando do início da missão na ilha de Dawson: “(…) sendo desde os seus começos frequentado por grande quantidade de indios Alacalufes”. A tenacidade dos missionários está expressa nas palavras: “E ai de nós se não nos mostrássemos destemidos! (…)”. Os primeiros contatos com os índios desta região surgem com uma descrição deslumbrante dos costumes e aspeto físico das diferentes tribos: “Alguns estavam ornados com lindos e artísticos frontaes (…)”. Também neste relato surgem os conflitos entre os índios, aqui designados pela sua proveniência de norte ou sul. A articulação e a intervenção dos missionários jogaram de forma positiva para alguma pacificação entre estas tribos: “(…) Alacalufes que, desde antiga data, eram declarados e irreconciliáveis inimigos dos Onas (…)”. O encontro das primeiras crianças com os missionários ficou, neste escrito, igualmente cinzelado como a realidade do sonho de D. Bosco.
De Cachoeira do Campo, Brasil, com data de 24 de maio de 1901, o Pe. Domingos Albanello contextualiza uma referência a uma expedição missionaria: “(…) em serviço de catechese dos índios Bororós e Coroados (…)”.
O Pe. Antonio Malan refere no seu escrito ao Pe. Rua as seguintes tribos índias: “(…) visitar as tribus dos ferozes Indios Cajabys, Bacahyris, Tajanhunas, Parecys e outras muitas (…)”, “(…) e civilizar os pobres Borórós (…)”. Os momentos mais perigosos e conflituosos não foram esquecidos, relembrando os momentos de coragem nesta empreitada missionária. O conhecimento dos diferentes povos nunca foi descorado, tal como refere o sacerdote aquando da chegada a uma estação telegráfica denominada “Rio Manso”: “Ahi recebi também ulteriores informações da tribu dos Borórós–Coroados (…)”.
À guisa de conclusão dos relatos anteriores, extenso e importantíssimo texto sobre as missões salesianas na América do Sul inclui as diferentes regiões calcorreadas: do Vicariato Apostólico da Patagónia Central e Setentrional, Prefeitura Apostólica da Patagónia Meridional e Terra do Fogo, Vicariato Apostólico de Mendez e Gualaquiza (Equador), Missão de Mato-Grosso, Missão nos Llanos de S. Martin (Colômbia). Personalidades e o respetivo trabalho desenvolvido desenrolam-se em linhas inspiradoras e reveladoras deste amplo e heroico movimento missionário.
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(1) O ano de 1902 apresentou onze publicações do BS em língua portuguesa, sendo a primeira de fevereiro desse ano. Engloba palavras introdutórias de D. Rua redigidas em 8 de dezembro de 1901, na cidade de Turim.